19 graus, madrugada de 26 de fevereiro. há poucas horas ainda era noite, tinha fluxo de gente em casa, na rua, nos vizinhos, cachorros latindo… a única sensação que o clima me causou foi o friozinho que fez eu botar uma calça de abrigo e um moletom, talvez algumas memórias de infância, tomar nescau quente no conforto de ser criança, nada muito fora do comum. logo isso acaba, todo mundo dorme, o mundo “para de girar” e as pessoas param de existir – não literalmente, mas perceptivelmente, ou pelo menos na minha cabeça que tá prestes a dissociar e que, nesse momento, já tem sérias dúvidas quanto ao que é real ou não.
finalmente, fora de mim mesma, fica muito mais fácil me perder nos pensamentos sobre o que não tá mais comigo e sobre as pessoas que não tão mais nesse mundo.
aqui eu me lembro de novo que tá frio e é madrugada, e isso por si só não me traz a sensação de tristeza ou felicidade, mas ela me lembra da única pessoa da minha família que tava acordada nas madrugadas frias quando eu também tava. a gente até tinha problemas com o sono pelos mesmos motivos, a depressão, mas não era só aí que as nossas similaridades paravam. ele era anarquista, punk, ouvia minha banda, entendia as letras, em épocas disfuncionais de minha família chegou a ser mais próximo pra mim do que eu fui do meu pai ou da minha mãe, mesmo sendo meu tio.
durante toda nossa vida a gente sempre se encontrava de madrugada, mesmo que a gente morasse na mesma casa. o dia a gente tava ocupade com nossas máscaras sociais interagindo com a parte normal da família. só quando toda ela tava aquietada que a gente conseguia divagar em paz sobre os assuntos que só a gente tinha interesse. não precisávamos fingir que vimos filme x ou jogo de time y para trocar ideia.
ele era a unica pessoa da família que me entendia quando eu falava com entusiasmo sobre ter entrado em confronto com a polícia em um protesto passado, na verdade, ele foi a única pessoa que contei sobre na época porque eu sabia que ele ia ser o único da família que ia entender, ele era o único parente próximo na época que tinha tanta revolta contra a sociedade, o capital e o estado quanto eu. ele era o único que entendia porque eu me vestia como eu me vestia, mas ele não só entendia, ele prontamente pedia minha ajuda pra parecer “o mais socialmente feio possível” nas festas de família pra quebrar as expectativas de todo mundo.
tudo isso sendo também assuntos que a gente trovava sobre enquanto tomava café em madrugadas frias entre as 2 e as 3 da manhã, interações que me lembram muito também a depoimento de um viciado, música que ele me mostrou numa dessas ocasiões.
ter perdido alguém que foi tão importante em tudo que eu sou agora pra depressão é algo que eu não sei lidar direito até hoje. eu lido com o luto e com o fato de que ele não tá mais aqui, mas até hoje, 3 anos depois, ainda não aprendi a lidar com o fato de que ele foi do jeito que foi, com o fato de que aquela pessoa que era como eu e lutava contra a mesma doença que eu luto morreu porque perdeu essa luta.
são 2 da manhã, cai chuva. não me resta muito além de ouvir depoimento de um viciado, passar café só pra mim, sentar no pátio e falar sozinha fazendo de conta que tu ainda tá do meu lado.